Os 4 tipos (fenótipos) de SOP e por que isso muda o tratamento
Nem toda SOP é igual. Veja como os critérios de Rotterdam formam quatro fenótipos, o que cada um indica sobre risco e como isso orienta o cuidado.

Imagem ilustrativa
Resposta rápida
A SOP tem quatro fenótipos, formados pelas combinações dos critérios de Rotterdam. O A tem ciclo irregular, excesso de androgênios e ovário policístico; o B, ciclo irregular e androgênios; o C, androgênios e ovário policístico; o D, ciclo irregular e ovário policístico. Os fenótipos A e B costumam ter mais risco metabólico.
O que levar deste texto
- Os quatro fenótipos nascem das combinações de dois ou três critérios de Rotterdam.
- Fenótipos com excesso de androgênios e ciclo irregular (A e B) tendem a ter mais resistência à insulina.
- O fenótipo ajuda a priorizar, mas o plano é definido pelos sintomas, exames e objetivos de cada mulher.
- Tipos como "SOP adrenal" ou "SOP inflamatória" não são classificações oficiais.
A SOP tem quatro fenótipos, chamados A, B, C e D. Eles existem porque, pelos critérios de Rotterdam, basta ter dois de três sinais para receber o diagnóstico: disfunção ovulatória (ciclo irregular), hiperandrogenismo (excesso de hormônios androgênicos, visto na pele ou no exame de sangue) e morfologia de ovário policístico. Cada combinação forma um tipo.
Saber o fenótipo importa porque ele dá pistas sobre o risco metabólico e sobre o que precisa de mais atenção. Mulheres com os fenótipos A e B, que juntam ciclo irregular e excesso de androgênios, costumam ter mais resistência à insulina e alterações metabólicas. Já os fenótipos C e D tendem a ter quadro metabólico mais leve, o que não quer dizer ausência de risco.
Os quatro fenótipos, um por um
Fenótipo A: os três critérios
Ciclo irregular, excesso de androgênios e ovário com aspecto policístico. É considerado o quadro "completo" e, em geral, o de maior impacto metabólico. É comum vir junto com acne, pelos em excesso, gordura concentrada na barriga, vontade intensa de doce e exames como glicemia, insulina e triglicérides alterados.
Fenótipo B: ciclo irregular e androgênios
Aqui o ovário pode ter aspecto normal no ultrassom, mas a mulher tem ciclos irregulares e sinais de androgênios elevados. O risco metabólico é parecido com o do fenótipo A. Ou seja: um ultrassom normal não afasta SOP nem risco de diabetes.
Fenótipo C: androgênios e ovário policístico, com ciclo regular
Também chamado de SOP ovulatória. A mulher menstrua com regularidade, mas tem acne, hirsutismo ou testosterona alta, além do ovário com aspecto policístico. O risco metabólico costuma ser intermediário. Muitas vezes o diagnóstico demora, porque "menstruar todo mês" faz ninguém pensar em SOP.
Fenótipo D: ciclo irregular e ovário policístico, sem androgênios
Ciclos irregulares e ovário com aspecto policístico, sem sinais claros de excesso de androgênios. É o fenótipo com menos alterações metabólicas em média. Nesse grupo, a investigação de outras causas de ciclo irregular precisa ser bem feita, porque condições como a amenorreia hipotalâmica (ligada a pouca energia, estresse e excesso de treino) também podem mostrar ovários com muitos folículos no ultrassom.
Por que o fenótipo muda o tratamento
O fenótipo não define sozinho o plano, mas ajuda a escolher prioridades.
- Nos fenótipos A e B, a atenção ao metabolismo é central: curva glicêmica, perfil lipídico, gordura abdominal, gordura no fígado e pressão. Na alimentação, o foco costuma ser controlar a resposta da glicose e da insulina, com proteína e fibra em todas as refeições, redução de ultraprocessados e combinação com exercício de força.
- No fenótipo C, a queixa principal costuma ser pele, pelos e cabelo. O cuidado com a insulina continua útil, porque ela estimula a produção de androgênios, mas o acompanhamento dermatológico e médico ganha peso.
- No fenótipo D, é essencial olhar se a paciente come o suficiente, se treina muito, como está o sono e o estresse. Em mulheres magras com restrição alimentar, cortar ainda mais comida pode piorar o ciclo em vez de ajudar. Falo disso em SOP em mulher magra.
Uma coisa não muda entre os fenótipos: a diretriz internacional de 2023 recomenda avaliar a glicemia de todas as mulheres com SOP e estimula um estilo de vida saudável para todas, com qualquer peso.
O fenótipo pode mudar com o tempo?
Pode. O fenótipo é uma fotografia do momento. Ganho de peso, piora da resistência à insulina, gestação, amamentação, uso de anticoncepcional e envelhecimento mudam a forma como a SOP se expressa. Uma mulher que era fenótipo D pode passar a ter sinais de androgênios se ganhar muito peso, e uma mulher fenótipo A pode voltar a ovular com regularidade depois de controlar a insulina.
Por isso eu gosto de olhar para a SOP como um quadro vivo, reavaliado ao longo do acompanhamento, e não como um rótulo fixo.
E os tipos de SOP da internet?
Você provavelmente já viu por aí "SOP insulínica", "SOP adrenal", "SOP inflamatória" e "SOP pós-pílula". Essa divisão ficou popular em livros e redes sociais, mas não é uma classificação reconhecida pela diretriz internacional nem pelas sociedades médicas.
Ela mistura ideias que têm algum fundo de verdade (a insulina, o estresse e a inflamação influenciam a SOP) com rótulos que podem confundir. "SOP pós-pílula", por exemplo, costuma descrever o ciclo irregular que aparece depois de parar o anticoncepcional. Muitas vezes, os sinais já existiam e estavam mascarados pela pílula; em outros casos, trata-se de um período de adaptação e não de SOP. Quem avalia isso é o médico.
O risco desses rótulos é levar a tratamentos genéricos, compra de suplementos sem indicação e sensação de culpa quando "o protocolo do meu tipo" não funciona. Na prática clínica, na maioria das mulheres, esses fatores aparecem misturados.
Pesquisas recentes também tentam agrupar a SOP em perfis mais metabólicos e mais reprodutivos, usando dados hormonais e genéticos. É um caminho promissor, mas ainda não mudou a forma de diagnosticar no consultório.
Como descobrir o seu fenótipo
O fenótipo sai do próprio diagnóstico. O médico avalia:
- O ciclo: intervalo entre menstruações, quantas vezes por ano você menstrua e se já ficou mais de 90 dias sem menstruar.
- Os androgênios: exame físico (acne, pelos, queda de cabelo) e exames como testosterona total e livre.
- O ovário: ultrassom transvaginal ou, em adultas, o hormônio antimülleriano (AMH) como alternativa. O AMH não é usado sozinho para diagnóstico, e na adolescência nem ultrassom nem AMH entram nos critérios.
Se o seu médico só pediu ultrassom, vale levar a lista de exames para investigar SOP para a próxima consulta. E se quiser organizar os sinais que você percebe no dia a dia, use o Mapa da SOP, ferramenta gratuita do site (não é diagnóstico, mas ajuda muito a conversa).
O que fazer com essa informação
O fenótipo é um ponto de partida. O plano de verdade junta tipo de SOP, exames, sintomas que mais incomodam, momento de vida (quer engravidar agora? quer melhorar a pele? quer emagrecer?) e rotina. É assim que eu monto o acompanhamento nutricional para SOP, sempre em conjunto com o ginecologista ou o endocrinologista, em São Paulo (Vila Nova Conceição) ou online.
Perguntas frequentes
Qual o tipo mais grave de SOP?
Não se fala em tipo mais grave, mas os fenótipos A e B, que juntam ciclo irregular e excesso de androgênios, costumam ter mais resistência à insulina e maior risco metabólico. Isso reforça a importância de acompanhar glicemia, colesterol e pressão.
Posso ter SOP sem cistos no ovário?
Sim. No fenótipo B, a mulher tem ciclo irregular e excesso de androgênios com ovário de aspecto normal no ultrassom. O diagnóstico continua válido porque dois dos três critérios estão presentes.
SOP adrenal existe?
A expressão é popular, mas não é uma classificação oficial. Em algumas mulheres os androgênios de origem adrenal, como o DHEA-S, estão mais altos, e o médico investiga isso. Antes, é preciso descartar hiperplasia adrenal congênita, que imita a SOP.
Menstruo todo mês, posso ter SOP?
Pode. No fenótipo C, a mulher tem ciclos regulares, mas apresenta excesso de androgênios e ovário com aspecto policístico. Acne persistente e pelos em excesso são sinais para investigar com o médico.
O fenótipo da SOP muda?
Pode mudar ao longo da vida, com alterações de peso, controle da insulina, gestação, uso de anticoncepcional e idade. Por isso vale reavaliar periodicamente com o médico.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta individual com nutricionista ou médico. Não altere medicamentos sem orientação médica.
"Minha menstruação some e ninguém me explica o porquê."




